quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Padre José Marchetti, outro Grande Terapeuta

Vocação Missionária

Padre José Marchetti nasceu aos 3 de outubro de 1869, em Lombrici, distrito de Camaiore, na província de Lucca, Itália. Contam os familiares que às vésperas de partir para a Argentina um tio, o franciscano Padre Jerônimo Marchetti, abençoou o recém-nascido, pedindo a Deus que o fizesse um bom sacerdote missionário. Padre José Marchetti, desde a tenra idade, alimentou o desejo de ser missionário. Seus pais, Ângelo Marchetti e Carolina Ghilarducci, muito religiosos, não só lhe ensinaram com palavras os rudimentos da fé, mas a testemunharam com exemplos concretos. Era uma vocação missionária que amadurecia no sofrimento. Da família pobre e trabalhadora, José herdou o gosto pelo estudo e o entusiasmo para o trabalho. Assim, se originou de sua natureza uma índole doce, ardente, inclinada à piedade. Desde menino sentia grande alegria em passar boa parte do dia na igreja de sua aldeia. Aos sete anos começou ajudar missa e aprender latim e italiano, sob a orientação do cônego Nicolau Santucci, que lhe abriu o caminho para o sacerdócio. Durante a sua formação, todos o julgavam bom. Os superiores o indicavam como exemplo a ser seguido. Ele, contudo, imitava Jesus Cristo. Todos os dias, lia um trecho do livro “Imitação de Cristo” ou dos Salmos de Davi, que o influenciaram profundamente. No dia 3 de abril de 1892 foi ordenado sacerdote e celebrou sua primeira missa solene na cidade de Capezzano. Entre os convidados, achava-se o velho missionário franciscano. Durante o banquete aquele veterano das missões na América, polarizou a atenção de todos com seus contos missionários, mas especialmente a do jovem sacerdote. Por fim, Padre José Marchetti não pôde mais manter secreto o seu propósito e revelou que também ele, há muito tempo, sentia-se chamado à mesma missão. De caráter reto e vontade férrea, depois de ter posto a mão no arado, não mais olhou para trás e se fez missionário e mártir para os irmãos mais pobres: órfãos e imigrantes italianos no Brasil.



A pedagogia de Padre José Marchetti

O jovem Marchetti gostava de estudar. Completou brilhantemente seus estudos no Seminário. Agora, é sacerdote.  A manifestação de sua inteligência impressionou os superiores. Sua cultura não foi fruto de ambição, mas verdadeira preocupação que o amadureceu e o tornou aberto aos problemas do seu tempo. Por isso, após a ordenação sacerdotal, o bispo o nomeou professor de matemática e de francês do Seminário Diocesano de Lucca, conferindo-lhe também o cargo de “secretário dos estudos”. Essas tarefas foram assumidas com tanto entusiasmo e afeto que Padre José Marchetti conquistou, bem depressa, a simpatia dos alunos. Como secretário dos estudos do clero ele devia substituir no ensino aqueles professores que, por algum motivo, não pudessem dar aulas. E ninguém era mais apto do que ele, pelo profundo conhecimento que tinha da língua grega e latina e pela cultura nas letras italianas. Dava também aulas particulares a quem se apresentasse para os exames públicos. Padre Marchetti era um professor de espírito missionário e sensível aos clamores do seu povo. Os estudantes jamais esqueceram a competência do jovem professor, bem como a gentileza e o respeito com que os tratava. Usava um método próprio para educar e instruir a juventude, que não se aprende nos livros, mas depende da bondade da vida, da competência profissional, da profundidade da doutrina e do amor ao próprio dever. Além de professor, Padre José Marchetti exercia a capelania de Balbano e o paroquiato da Compignano, nas montanhas. A pé, ele se dirigia àqueles lugares distantes para prestar assistência religiosa como ecônomo espiritual. A dura realidade vivida por essas comunidades era, muitas vezes, tema de reflexão com os seus alunos. No Brasil, a educação, a formação profissional e religiosa das crianças órfãs e jovens mereceram atenção especial de Padre José Marchetti. Seu apostolado e projetos priorizaram o setor educacional côo sendo de fundamental importância para o pleno êxito da missão junto aos migrantes.

O Pai dos Órfãos

No final do século passado, os problemas sociais eram muito graves na Itália. A realidade era dramática. A miséria atingia especialmente os camponeses. Por isso, milhões deles abandonaram a Itália em busca de melhores condições de vida. Padre Marchetti viu partir metade de seus paroquianos, decididos a emigrar para o Brasil. Ele mesmo os acompanhou até o Porto de Gênova para ajudá-los no momento da partida, impedindo-os de caírem nas mãos de agentes inescrupulosos, como acontecia freqüentemente. Esse primeiro contato com a dura realidade, somado a uma vocação missionária já revelada e a conferência sobre a emigração, proferida por Dom João Batista Scalabrini, em Lucca, em 1892, interpelaram fortemente o coração do Padre Marchetti, motivando-o a dar uma resposta generosa de doação total, em favor dos imigrantes italianos no Brasil. Como “missionário externo”, da Congregação dos Missionários de São Carlos, comprometeu-se a acompanhar os emigrantes durante a travessia, como capelão de bordo nos navios da emigração. Em outubro de 1894, realizou sua primeira viagem ao Brasil. O apostolado com os emigrantes italianos nos navios e o contato com a situação dos emigrantes alargou sua visão sobre o problema migratório e aumentou-lhe o desejo de encontrar soluções. Um episódio ocorrido durante a segunda viagem ao Brasil, em janeiro de 1895, teve um papel importante nessa busca. Esta viagem definiu o futuro do Padre Marchetti. Tinha ele, então, 25 anos. Durante a viagem, morreu uma jovem senhora deixando o marido com uma criança de colo. O homem estava tão desesperado que ameaçava jogar-se ao mar. Para tranqüilizá-lo, Padre Marchetti prometeu cuidar da criança. Naquele lance de amor decidiu sua vida e sua morte. Tornou-se para sempre o missionário dos emigrantes e o pai de seus órfãos. No Rio de Janeiro, Padre Marchetti desceu do navio, levando no colo a criancinha. Bateu em diversas portas para encontrar uma pessoa disposta a acolher o órfão. Daquele momento em diante, Padre Marchetti teve uma só idéia: construir, em São Paulo, um orfanato para os filhos órfãos dos imigrantes italianos e dos antigos escravos, dispersos pelas cidades e fazendas. Esta idéia, nutrida pro sua grande na Providência Divina e no desejo de fazer o bem, em pouco tempo, tornou-se realidade. Surgiu, assim, o Orfanato Cristóvão Colombo, no alto da Colina do Ipiranga, na cidade de São Paulo, SP-Brasil.

Projetos e realizações

O Orfanato Cristóvão Colombo nasceu acompanhado, desde o início, por sinais misteriosos. A centelha vivificadora da caridade, que inflamou o coração e a lama de Padre José Marchetti, despertou-lhe o propósito da construção do Orfanato.  Chegando em São Paulo, Padre Marchetti encontrou-se com o benemérito Conde José Vicente de Azevedo, do qual obteve, em doação, um vasto terreno na Colina do Ipiranga. Os trabalhos de construção do Orfanato foram iniciados em 15 de fevereiro de 1895, em ritmo acelerado. No prazo de 9 meses, aos 8 de dezembro do mesmo ano, o novo orfanato, denominado Cristóvão Colombo, abriu suas portas aos primeiros 80 órfãos. O Orfanato Cristóvão Colombo, essa admirável instituição, foi erguida pelo Padre Marchetti à custa de sacrifícios. Para mantê-lo, Padre Marchetti empreendeu longas e penosas viagens, solicitando esmolas, sofrendo privações e afrontas e recolhendo, por um milagroso esforço, esmolas de ricos e pobres. Nem mesmo a febre tifóide e a febre amarela conseguiram diminuir o seu zelo apostólico. Percorria as fazendas de café, sem nunca parar, exercendo ali o seu ministério sacerdotal e recolhendo os pequenos órfãos para levá-los ao orfanato que fundara, onde sua irmã Assunta não cedia a ninguém o privilégio de ser a primeira a acolhê-los em seus braços. Por duas vezes arriscou a vida e conseguiu salvar-se milagrosamente. Nunca esmoreceu, apesar de encontrar-se só, diante de tantas dificuldades.  O edifício da sessão masculina, do Ipiranga, ainda estava em fase de construção e já o Padre Marchetti iniciava, na Vila Prudente de Morais, também na cidade de São Paulo, as obras de um outro importante edifício, destinado às meninas órfãs e à residência das Irmãs, Servas dos Órfãos e Abandonados. Este local pode ser considerado até hoje o berço e a Casa-Mãe da Congregação. Tudo arrancou dali! Ao fundar os Institutos, o Padre José Marchetti demonstrou possuir todas as qualidades de um organizador-tipo. O objetivo das referidas fundações era e continua a ser a proteção à infância, o sustento e a formação educacional, religiosa e profissional dos menores.

Uma família missionária

O projeto missionário do Padre José Marchetti não se reduzia apenas aos orfanatos. Ele se preocupava também com os migrantes doentes, sem assistência médica e por isso, em resposta ao pedido do cônsul italiano, dispõe-se a tomar sob sua responsabilidade também o hospital italiano Humberto I. Em seguida, informou a Dom João Batista Scalabrini sobre a necessidade de confiar os orfanatos e o Hospital Humberto I à direção de religiosas que pudessem dar aos órfãos e enfermos os cuidados que só o amor de mãe poderia dar. Essas religiosas seriam mulheres imbuídas de espírito missionário e que atuassem dentro do carisma de serviço evangélico e missionário em favor dos migrantes. Por isso, em 1895, Padre José Marchetti, confiando na Divina Providência, voltou à Itália e lá convenceu sua mãe, Dona Carolina (seu pai já era falecido), a irmã Assunta e duas moças, Maria e Ângela, a segui-lo até o Ipiranga, SP, para ocuparem-se dos órfãos e doentes. Na manhã do dia 25 de outubro de 1895, na Capela do episcopado de Piacenza, Itália, Dom João Batista Scalabrini celebrou missa com o pequeno grupo. Depois, benzeu os crucifixos e os entregou às quatro religiosas: “Eis o companheiro indivisível nas vossas peregrinações apostólicas, eis o vosso infalível conforto, quer na vida, quer na morte”. Era a celebração do Envio Missionário.  Esse pequeno grupo foi a semente de uma nova congregação religiosa à medida do migrante. Teve como primeiro nome o de “Servas dos Órfãos e dos Abandonados no Exterior” e isso já sublinhava o seu empenho em servir os mais pobres entre os pobres. Padre José Marchetti tornou-se, assim, o principal cooperador de Dom João Batista Scalabirni, que deu vida àquela que é hoje a Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo – Scalabrinianas.

Acolhida aos migrantes

“Padre Marchetti ia com freqüência ao local de desembarque dos imigrantes, nos portos ou estações ferroviárias, esperar os imigrantes, consolar e socorrer os doentes e recolher as criancinhas, cujos pais tivessem morrido na viagem. Em cada travessia de imigrantes eram numerosos os óbitos, ia, por isso, o Padre José Marchetti quase certo de achar crianças abandonadas para trazer para o seu orfanato do Ipiranga”.

(Transcrito das Obras de Eduardo Prado)

Desde sua primeira viagem ao Brasil, a bordo do navio Maranhão, Padre Marchetti sofria muito com a falta de acolhida reservada aos imigrantes italianos, após uma longa e penosa viagem. Os imigrantes italianos eram usados como mercadoria de troca dos governos. Era uso comum dizer que a única mercadoria abundante para se vender era o homem, o operário, o pobre migrante. A hospitalidade a eles reservada era repugnante, desumana, escravagista. Durante dias, dormiam no chão, em precários barracões, à espera de quem se interessasse pelo seu trabalho. Atormentados pelo calor, pelos mosquitos e pela falta de alimento, os imigrantes bem rapidamente viam desmoronar seus sonhos de fortuna e de vida abundante. Sem terem como voltar, o único consolo que recebiam vinha do sacerdote que procurava consolá-los com suas palavras de ânimo e esperança. Além disso, a presença de Padre José Marchetti evitava a crueldade e o abuso de muitos fazendeiros no trato com os imigrantes. A visão dramática da realidade, a crescente inserção no mundo migratório e a confiança total na Divina Providência, determinaram o modo de ser e agir de Padre José Marchetti. Sensibilizado, estudava maneiras de aliviar tantas misérias. Para isso, lutava, junto às autoridades brasileiras e italianas, pedindo a aprovação de projetos que visavam a fundação de casas de acolhida para os imigrantes, principalmente na Ilha das Flores (RJ), em Santos (SP) e na cidade de São Paulo.

Das Cartas de Padre Marchetti


“Escrevo-lhe debaixo de chuva. Não posso exprimir-me como gostaria. Desculpe-me, estou todo molhado”.

(Carta de Padre José Marchetti a Dom Scalabrini – São Paulo – 31/01/1895)

Muitos dos projetos, pensamentos e realizações de Padre José Marchetti podemos encontrá-los citados nas várias cartas que escreveu a Dom João Batista Scalabrini e a seus amigos. Quando encontrava tempo, onde quer que estivesse, escrevia para informar sobre sua ação pastoral e pedir conselhos. Este homem tido pelos brasileiros como “máquina de atividade portentosa”, onde e como encontrava tempo para cuidar dos orfanatos, formar as Irmãs e vocacionados, confessar, pregar, caminhar e escrever, não se sabe dizer ao certo. O fato, é que esses momentos em que escrevia ou em que se encontrava diante do Tabernáculo eram os silêncios de sua maturidade, apesar de ser ainda tão jovem, o secreto e misterioso recolhimento que preparava sua alma de missionário para o intenso trabalho pastoral. Essa alma, grande e generosa, sabia mesclar Deus a todos os atos de sua existência, dando uma dimensão humana às coisas divinas e uma dimensão divina às coisas humanas. Padre José Marchetti era uma pessoa culta e afável, mas nele se destacava, sobretudo, a caridade, no sentido mais profundo e magnífico d palavra. A caridade movia todas as suas ações e renúncias: renunciou ao mundo para enriquecê-lo, renunciou a si mesmo para enriquecer os outros. Sempre cheio de dons para o próximo e sempre pobre para a sua pessoa. A sua vida foi um subir contínuo da terra ao céu e um contínuo descer do céu à terra. Seu fervor pastoral não conhecia limites, nenhum obstáculo o parou, o freou na sua corrida par o Reino de Deus. Nas cartas, temos registrado o testemunho e o exemplo desse magnífico Apóstolo e Mártir da Caridade, que sem reservas dedicou-se inteiramente para o bem dos órfãos e dos excluídos de sua época.


Ação Pastoral

No desejo de levar Cristo a todos, Padre José Marchetti percorria as fazendas do interior do Estado de São Paulo, também aquelas tomadas pelo tifo e pela febre amarela, de maneira a poder assistir os imigrantes italianos na catequese, na saúde e na promoção social e procurar o pão para os seus pequeninos órfãos. Padre Marchetti se tornava, há um século, um autêntico precursor das novas formas de apostolado, que atingiam as pessoas de todas as camadas sociais. Padre Marchetti inseria-se totalmente no mundo migratório. Fez dele o centro de sua missão. Movido por um real desejo de colaborar para o desenvolvimento das populações migrantes, não mediu esforços pra encontrar formas e meios que minimizassem o sofrimento de milhares de colonos nas fazendas do interior do Estado de São Paulo, bem como o da população marginalizada na cidade de São Paulo e do interior do Brasil. A preocupação do Padre Marchetti abrangia todos os imigrantes, mas principalmente aqueles mais abandonados: os órfãos e os doentes, sem assistência médica e espiritual. Em uma palavra, ele mostrou a todos, com seu exemplo, que não devem pensar somente em si mesmos, mas porque são cristãos devem estar prontos para sacrificarem-se ao próximo, todas às vezes que o exigisse o grande mandamento de Cristo: a Caridade. A fé, a esperança e a caridade, irremovíveis, guiaram o Padre Marchetti a uma vida religiosa-missinária-apostólica tão intensa que frutificou em grandes e inexplicáveis realizações no Brasil, no breve espaço de 22 meses. Apesar de ver a sua saúde cada vez mais debilitada, Padre Marchetti continuava em ritmo intenso de trabalho, movido pelos votos de Caridade e de Vítima do próximo, proferidos no dia em que completou 27 anos. Padre José Marchetti via que sozinho não podia atender aquela messe tão grande, que era o Estado de São Paulo. Por isso, dirigia-se insistentemente a Dom Scalabrini pedindo-lhe outros sacerdotes para ajudá-lo no seu imenso campo de ação pastoral. Contudo, os socorros não chegavam. Então, procurou ele mesmo encontrar e formar alguns jovens que o pudessem auxiliar. Contava, sobretudo, com o trabalho dedicado de sua mãe, Carolina, e das Irmãs Assunta, Ângela e Maria, que tomavam conta do Orfanato e das crianças enquanto ele, numa entrega total, atendia o seu povo.

Rosas e espinhos

“Uma noite, depois de uma de suas longas excursões nas fazendas, Padre José Marchetti caminha em direção ao alto do Ipiranga, rezando terços, um pós outro, para os benfeitores que lhes permitiram voltar com uma boa soma em favor dos pequenos órfãos que, nesse momento, dormiam pacificamente, lá em cima, no edifício branco, nascido à sombra encantadora da caridade.
- Pára e fica quieto! Desembolsa o dinheiro! 
Não é o brilho das facas que aperta a garganta do missionário, mas a linguagem italiana da intimidação. Para quem, para os filhos de quem, está consumindo a vida? Padre Marchetti levanta então o crucifixo e encara os assaltantes, sem timidez:
- O dinheiro é para os órfãos de nossos concidadãos. Se tendes a coragem, roubai-mo!
Os facões se abaixam e o peregrino continua o caminho, rezando o terço.”.
(“Como um relâmpago” – Mario Francesconi)

A maioria dos imigrantes italianos era pobre. Desiludidos, enganados e abandonados à própria sorte, alguns deles enveredavam por caminhos marginais: roubo, prostituição, seitas, etc. Padre Marchetti teve um olhar de acolhida para esses imigrantes duplamente exilados: da pátria e da sociedade. Também a eles o Padre Marchetti estendeu o seu apostolado missionário. Dominado por uma idéia básica, nele mais forte do que a morte, e diante de um trabalho complexo, difícil e arriscado, Padre José Marchetti não era homem de se preocupar com perigos e obstáculos, surgidos de qualquer parte. Considerava o Evangelho uma força invencível e o meio mais apto para penetrar em cada camada social e em cada coração. Apesar das dificuldades com a língua, a fé que saía de suas palavras era assim tão eficaz que ele se comunicava com todos de modo impressionante e inesquecível.
A questão da marginalidade, sobretudo nas cidades, preocupava muito Padre Marchetti. Em suas cartas, podemos constatar a sua insistência em prestar formação, auxílio e acompanhamento especial às crianças e jovens, dispersos pelas ruas; às moças levadas à prostituição e aos desempregados. Para afrontar tão graves problemas, pensava em criar escolas especiais, centros de acolhida e centros de profissionalização.

Zelo Apostólico

“...Passando perto de uma casa, Padre Marchetti escutou o choro de uma criança: um choro desolado e sem conforto. Bate à porta. Nenhuma resposta! Chama por ajuda. Alguém o informa que no dia anterior viram levar para fora daquela casa o ataúde do dono. Ali devia ter ficado a esposa com o filhinho. Arrombaram a porta e se depararam com uma cena, que relembrava as narrativas das antigas pestes. Num pobre leito de palha, jazia sem vida uma pobre italiana, ainda abraça ao seu filho, vivo e chorando. Ao lado, estavam duas velas, acesas por ela antes de morrer vitimada pelo tifo. Padre Marchetti tira, então, dos braços rígidos a pequena criança, reza por alguns minutos sobre o cadáver da mãe e depois, como tantas outras vezes, descuidado do contágio iminente, volta correndo até o Ipiranga, com o orfãozinho nos braços”.
(“Como um relâmpago” – Mario Francesconi)



Esta é uma das muitas cenas vividas por Padre José Marchetti. Diante das urgências apostólicas, com as quais se deparava, sua caridade não conhecia limites.

Em 1896, em São Paulo, especialmente no interior, as epidemias de febre amarela e de febre tifóide dizimavam centenas de trabalhadores rurais, isolados e abandonados nas fazendas. Muitos desses imigrantes eram condenados a morrer sem nenhuma assistência média, sem nenhum conforto espiritual, já que todos se afastavam deles por medo do contágio. Não havia ninguém para ajudá-los: nem o Estado, nem os partidos políticos, nem os particulares. Padre José Marchetti, desafiando os conselhos e as medidas de precaução, via, nesses pobres doentes, pessoas que necessitavam de seu auxílio, dado que a ausência absoluta de cuidados médicos era um dos maiores clamores daquela população migrante. Como se sabe, os colonos tinham necessidade urgente de duas providências essenciais: assistência médico-sanitária e assistência religiosa. Atender esses doentes era um dos pilares da ação missionária de Padre José Marchetti. Por isso, percorria, a pé ou a cavalo, grandes distâncias para encontrar a quem pudesse socorrer com assistência médica e com o conforto dos sacramentos, a fim de que pudessem ter ao menos uma morte digna. Além de colaborar, sobremaneira, na construção do hospital italiano Humberto I, em São Paulo, destinado aos colonos imigrantes, Padre Marchetti insistia na ação missionária das Irmãs junto aos enfermos.

Uma Luz Resplandecente

É fato incontestável que nos encontramos diante de um homem que traz Jesus Cristo à nossa mente e como Ele Padre Marchetti passou à história como mensageiro daquela Palavra que, entre as trevas do mundo, iluminou o caminho dos migrantes. Padre Marchetti redescobriu aquela fôrma de que são feitos os santos. Quem quer que se aproximasse dele, pequeno ou grande, inculto ou sábio, o percebia diferente dos outros homens, dos outros sacerdotes, dos outros migrantes. Havia nele “algo” especial. Dele, a Baronesa Veridiana Prado afirmou: “Aquele sacerdote traz esculpidas no rosto as belezas das virtudes divinas”. Autêntico missionário, por onde passava irradiava a presença de Deus. Esse “algo” que o caracterizava, era o entusiasmo que o motivou a responder “sim” a Cristo, que o chamara a unir-se a Ele na Sua missão e na Sua paixão. Na doação total ao próximo, contraiu a febre tifóide enquanto assistia aos doentes, preparando-os à reconciliação com Deus. Além de ministrar os sacramentos aos enfermos, recolhia os órfãos nas casas dos agonizantes e vítimas da doença. Padre José Marchetti morreu em conceito de santidade a 14 de dezembro de 1896. Selou sua obra com o martírio. No mesmo dia, Padre Natal Pigato, informando a Dom João Batista Scalabrini sobre a Morte de Padre José Marchetti, escreveu: “Morreu um santo! Estava pronto para o céu. Deus o quis ao seu eterno repouso. Assim tão cansado, consumido pelas fadigas, devorado pelos contínuos sacrifícios por amor aos seus orfãozinhos, pelos quais não parou nunca, nem de dia, nem de noite, para encontrar par ele o pão de cada dia. Terminou a sua vida, deixando-nos nas mãos da Providência”. Padre Marchetti, além de gestos heróicos, realizou, sobretudo, os pequenos atos de cada dia com simplicidade, humildade e caridade. A vida dele foi como um mosaico: que se compunha de tantos pequenos fragmentos de cotidiano. Ele acreditava nas verdades da fé e agia como acreditava, falava como sentia e se comportava como falava. Assim, ensinou aos cristãos o modo mais simples para se chegar a união com Deus e a todos indicou a coerência entre o pensamento e a ação. Padre José Marchetti viveu pouco mais de 27 anos. Sua vida foi como a passagem de uma estrela cadente, porém com um rastro e com um testemunho que nos ilumina ainda hoje. 

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