Vocação Missionária
Padre José Marchetti nasceu aos 3 de outubro de 1869, em Lombrici, distrito de
Camaiore, na província de Lucca, Itália. Contam os familiares que às vésperas
de partir para a Argentina um tio, o franciscano Padre Jerônimo Marchetti,
abençoou o recém-nascido, pedindo a Deus que o fizesse um bom sacerdote
missionário. Padre José Marchetti, desde a tenra idade, alimentou o desejo de ser
missionário. Seus pais, Ângelo Marchetti e Carolina Ghilarducci, muito
religiosos, não só lhe ensinaram com palavras os rudimentos da fé, mas a
testemunharam com exemplos concretos. Era uma vocação missionária que
amadurecia no sofrimento. Da família pobre e trabalhadora, José herdou o gosto
pelo estudo e o entusiasmo para o trabalho. Assim, se originou de sua natureza
uma índole doce, ardente, inclinada à piedade. Desde menino sentia grande
alegria em passar boa parte do dia na igreja de sua aldeia. Aos sete anos
começou ajudar missa e aprender latim e italiano, sob a orientação do cônego
Nicolau Santucci, que lhe abriu o caminho para o sacerdócio. Durante a sua formação, todos o julgavam bom. Os superiores o indicavam como
exemplo a ser seguido. Ele, contudo, imitava Jesus Cristo. Todos os dias, lia
um trecho do livro “Imitação de Cristo” ou dos Salmos de Davi, que o
influenciaram profundamente. No dia 3 de abril de 1892 foi ordenado sacerdote e celebrou sua primeira missa
solene na cidade de Capezzano. Entre os convidados, achava-se o velho
missionário franciscano. Durante o banquete aquele veterano das missões na
América, polarizou a atenção de todos com seus contos missionários, mas
especialmente a do jovem sacerdote. Por fim, Padre José Marchetti não pôde mais
manter secreto o seu propósito e revelou que também ele, há muito tempo,
sentia-se chamado à mesma missão. De caráter reto e vontade férrea, depois de ter posto a mão no arado, não mais
olhou para trás e se fez missionário e mártir para os irmãos mais pobres:
órfãos e imigrantes italianos no Brasil.
A pedagogia de Padre
José Marchetti
O jovem Marchetti gostava de estudar. Completou brilhantemente seus estudos no
Seminário. Agora, é sacerdote. A manifestação de sua inteligência impressionou os superiores. Sua cultura não
foi fruto de ambição, mas verdadeira preocupação que o amadureceu e o tornou
aberto aos problemas do seu tempo. Por isso, após a ordenação sacerdotal, o
bispo o nomeou professor de matemática e de francês do Seminário Diocesano de
Lucca, conferindo-lhe também o cargo de “secretário dos estudos”. Essas tarefas
foram assumidas com tanto entusiasmo e afeto que Padre José Marchetti conquistou,
bem depressa, a simpatia dos alunos. Como secretário dos estudos do clero ele
devia substituir no ensino aqueles professores que, por algum motivo, não
pudessem dar aulas. E ninguém era mais apto do que ele, pelo profundo conhecimento que tinha da
língua grega e latina e pela cultura nas letras italianas. Dava também aulas
particulares a quem se apresentasse para os exames públicos. Padre Marchetti era um professor de espírito missionário e sensível aos
clamores do seu povo. Os estudantes jamais esqueceram a competência do jovem
professor, bem como a gentileza e o respeito com que os tratava. Usava um
método próprio para educar e instruir a juventude, que não se aprende nos
livros, mas depende da bondade da vida, da competência profissional, da profundidade
da doutrina e do amor ao próprio dever. Além de professor, Padre José Marchetti exercia a capelania de Balbano e o
paroquiato da Compignano, nas montanhas. A pé, ele se dirigia àqueles lugares
distantes para prestar assistência religiosa como ecônomo espiritual. A dura
realidade vivida por essas comunidades era, muitas vezes, tema de reflexão com
os seus alunos. No Brasil, a educação, a formação profissional e religiosa das crianças órfãs e
jovens mereceram atenção especial de Padre José Marchetti. Seu apostolado e
projetos priorizaram o setor educacional côo sendo de fundamental importância
para o pleno êxito da missão junto aos migrantes.
O Pai dos Órfãos
No final do século passado, os problemas sociais eram muito graves na Itália. A
realidade era dramática. A miséria atingia especialmente os camponeses. Por
isso, milhões deles abandonaram a Itália em busca de melhores condições de
vida. Padre Marchetti viu partir metade de seus paroquianos, decididos a
emigrar para o Brasil. Ele mesmo os acompanhou até o Porto de Gênova para
ajudá-los no momento da partida, impedindo-os de caírem nas mãos de agentes
inescrupulosos, como acontecia freqüentemente. Esse primeiro contato com a dura realidade, somado a uma vocação missionária já
revelada e a conferência sobre a emigração, proferida por Dom João Batista
Scalabrini, em Lucca, em 1892, interpelaram fortemente o coração do Padre
Marchetti, motivando-o a dar uma resposta generosa de doação total, em favor
dos imigrantes italianos no Brasil. Como “missionário externo”, da Congregação dos Missionários de São Carlos,
comprometeu-se a acompanhar os emigrantes durante a travessia, como capelão de
bordo nos navios da emigração. Em outubro de 1894, realizou sua primeira viagem
ao Brasil. O apostolado com os emigrantes italianos nos navios e o contato com
a situação dos emigrantes alargou sua visão sobre o problema migratório e
aumentou-lhe o desejo de encontrar soluções. Um episódio ocorrido durante a
segunda viagem ao Brasil, em janeiro de 1895, teve um papel importante nessa
busca. Esta viagem definiu o futuro do Padre Marchetti. Tinha ele, então, 25
anos. Durante a viagem, morreu uma jovem senhora deixando o marido com uma criança de
colo. O homem estava tão desesperado que ameaçava jogar-se ao mar. Para tranqüilizá-lo,
Padre Marchetti prometeu cuidar da criança. Naquele lance de amor decidiu sua
vida e sua morte. Tornou-se para sempre o missionário dos emigrantes e o pai de
seus órfãos. No Rio de Janeiro, Padre Marchetti desceu do navio, levando no colo a
criancinha. Bateu em diversas portas para encontrar uma pessoa disposta a
acolher o órfão. Daquele momento em diante, Padre Marchetti teve uma só idéia:
construir, em São Paulo, um orfanato para os filhos órfãos dos imigrantes
italianos e dos antigos escravos, dispersos pelas cidades e fazendas. Esta
idéia, nutrida pro sua grande na Providência Divina e no desejo de fazer o bem,
em pouco tempo, tornou-se realidade. Surgiu, assim, o Orfanato Cristóvão
Colombo, no alto da Colina do Ipiranga, na cidade de São Paulo, SP-Brasil.
Projetos e realizações
O Orfanato Cristóvão Colombo nasceu acompanhado, desde o início, por sinais
misteriosos. A centelha vivificadora da caridade, que inflamou o coração e a
lama de Padre José Marchetti, despertou-lhe o propósito da construção do
Orfanato. Chegando em São Paulo, Padre Marchetti encontrou-se com o benemérito Conde José
Vicente de Azevedo, do qual obteve, em doação, um vasto terreno na Colina do
Ipiranga. Os trabalhos de construção do Orfanato foram iniciados em 15 de
fevereiro de 1895, em ritmo acelerado. No prazo de 9 meses, aos 8 de dezembro
do mesmo ano, o novo orfanato, denominado Cristóvão Colombo, abriu suas portas
aos primeiros 80 órfãos. O Orfanato Cristóvão Colombo, essa admirável instituição, foi erguida pelo
Padre Marchetti à custa de sacrifícios. Para mantê-lo, Padre Marchetti
empreendeu longas e penosas viagens, solicitando esmolas, sofrendo privações e
afrontas e recolhendo, por um milagroso esforço, esmolas de ricos e pobres. Nem
mesmo a febre tifóide e a febre amarela conseguiram diminuir o seu zelo
apostólico. Percorria as fazendas de café, sem nunca parar, exercendo ali o seu
ministério sacerdotal e recolhendo os pequenos órfãos para levá-los ao orfanato
que fundara, onde sua irmã Assunta não cedia a ninguém o privilégio de ser a
primeira a acolhê-los em seus braços. Por duas vezes arriscou a vida e
conseguiu salvar-se milagrosamente. Nunca esmoreceu, apesar de encontrar-se só,
diante de tantas dificuldades. O edifício da sessão masculina, do Ipiranga, ainda estava em fase de construção
e já o Padre Marchetti iniciava, na Vila Prudente de Morais, também na cidade
de São Paulo, as obras de um outro importante edifício, destinado às meninas
órfãs e à residência das Irmãs, Servas dos Órfãos e Abandonados. Este local
pode ser considerado até hoje o berço e a Casa-Mãe da Congregação. Tudo
arrancou dali! Ao fundar os Institutos, o Padre José Marchetti demonstrou possuir todas as
qualidades de um organizador-tipo. O objetivo das referidas fundações era e continua
a ser a proteção à infância, o sustento e a formação educacional, religiosa e
profissional dos menores.
Uma família missionária
O projeto missionário do Padre José Marchetti não se reduzia apenas aos
orfanatos. Ele se preocupava também com os migrantes doentes, sem assistência
médica e por isso, em resposta ao pedido do cônsul italiano, dispõe-se a tomar
sob sua responsabilidade também o hospital italiano Humberto I. Em seguida,
informou a Dom João Batista Scalabrini sobre a necessidade de confiar os
orfanatos e o Hospital Humberto I à direção de religiosas que pudessem dar aos
órfãos e enfermos os cuidados que só o amor de mãe poderia dar. Essas religiosas seriam mulheres imbuídas de espírito missionário e que
atuassem dentro do carisma de serviço evangélico e missionário em favor dos
migrantes. Por isso, em 1895, Padre José Marchetti, confiando na Divina
Providência, voltou à Itália e lá convenceu sua mãe, Dona Carolina (seu pai já
era falecido), a irmã Assunta e duas moças, Maria e Ângela, a segui-lo até o
Ipiranga, SP, para ocuparem-se dos órfãos e doentes. Na manhã do dia 25 de outubro de 1895, na Capela do episcopado de Piacenza,
Itália, Dom João Batista Scalabrini celebrou missa com o pequeno grupo. Depois,
benzeu os crucifixos e os entregou às quatro religiosas: “Eis o companheiro
indivisível nas vossas peregrinações apostólicas, eis o vosso infalível
conforto, quer na vida, quer na morte”. Era a celebração do Envio Missionário. Esse pequeno grupo foi a semente de uma nova congregação religiosa à medida do
migrante. Teve como primeiro nome o de “Servas dos Órfãos e dos Abandonados no
Exterior” e isso já sublinhava o seu empenho em servir os mais pobres entre os
pobres. Padre José Marchetti tornou-se, assim, o principal cooperador de Dom João
Batista Scalabirni, que deu vida àquela que é hoje a Congregação das Irmãs
Missionárias de São Carlos Borromeo – Scalabrinianas.
Acolhida aos migrantes
“Padre Marchetti ia com freqüência ao local de desembarque dos imigrantes, nos
portos ou estações ferroviárias, esperar os imigrantes, consolar e socorrer os
doentes e recolher as criancinhas, cujos pais tivessem morrido na viagem. Em
cada travessia de imigrantes eram numerosos os óbitos, ia, por isso, o Padre
José Marchetti quase certo de achar crianças abandonadas para trazer para o seu
orfanato do Ipiranga”.
(Transcrito das Obras de Eduardo Prado)
Desde sua primeira viagem ao Brasil, a bordo do navio Maranhão, Padre Marchetti
sofria muito com a falta de acolhida reservada aos imigrantes italianos, após
uma longa e penosa viagem. Os imigrantes italianos eram usados como mercadoria de troca dos governos. Era
uso comum dizer que a única mercadoria abundante para se vender era o homem, o
operário, o pobre migrante. A hospitalidade a eles reservada era repugnante,
desumana, escravagista. Durante dias, dormiam no chão, em precários barracões,
à espera de quem se interessasse pelo seu trabalho. Atormentados pelo calor,
pelos mosquitos e pela falta de alimento, os imigrantes bem rapidamente viam
desmoronar seus sonhos de fortuna e de vida abundante. Sem terem como voltar, o
único consolo que recebiam vinha do sacerdote que procurava consolá-los com
suas palavras de ânimo e esperança. Além disso, a presença de Padre José
Marchetti evitava a crueldade e o abuso de muitos fazendeiros no trato com os
imigrantes. A visão dramática da realidade, a crescente inserção no mundo migratório e a
confiança total na Divina Providência, determinaram o modo de ser e agir de
Padre José Marchetti. Sensibilizado, estudava maneiras de aliviar tantas
misérias. Para isso, lutava, junto às autoridades brasileiras e italianas,
pedindo a aprovação de projetos que visavam a fundação de casas de acolhida
para os imigrantes, principalmente na Ilha das Flores (RJ), em Santos (SP) e na
cidade de São Paulo.
“Escrevo-lhe debaixo de chuva. Não posso exprimir-me como gostaria.
Desculpe-me, estou todo molhado”.
(Carta de Padre José Marchetti a Dom Scalabrini – São Paulo – 31/01/1895)
Muitos dos projetos, pensamentos e realizações de Padre José Marchetti podemos
encontrá-los citados nas várias cartas que escreveu a Dom João Batista
Scalabrini e a seus amigos. Quando encontrava tempo, onde quer que estivesse,
escrevia para informar sobre sua ação pastoral e pedir conselhos. Este homem tido pelos brasileiros como “máquina de atividade portentosa”, onde
e como encontrava tempo para cuidar dos orfanatos, formar as Irmãs e
vocacionados, confessar, pregar, caminhar e escrever, não se sabe dizer ao
certo. O fato, é que esses momentos em que escrevia ou em que se encontrava
diante do Tabernáculo eram os silêncios de sua maturidade, apesar de ser ainda
tão jovem, o secreto e misterioso recolhimento que preparava sua alma de
missionário para o intenso trabalho pastoral. Essa alma, grande e generosa, sabia mesclar Deus a todos os atos de sua
existência, dando uma dimensão humana às coisas divinas e uma dimensão divina
às coisas humanas. Padre José Marchetti era uma pessoa culta e afável, mas nele se destacava,
sobretudo, a caridade, no sentido mais profundo e magnífico d palavra. A
caridade movia todas as suas ações e renúncias: renunciou ao mundo para
enriquecê-lo, renunciou a si mesmo para enriquecer os outros. Sempre cheio de
dons para o próximo e sempre pobre para a sua pessoa. A sua vida foi um subir contínuo da terra ao céu e um contínuo descer do céu à
terra. Seu fervor pastoral não conhecia limites, nenhum obstáculo o parou, o
freou na sua corrida par o Reino de Deus. Nas cartas, temos registrado o testemunho e o exemplo desse magnífico Apóstolo
e Mártir da Caridade, que sem reservas dedicou-se inteiramente para o bem dos
órfãos e dos excluídos de sua época.
Ação Pastoral
No desejo de levar Cristo a todos, Padre José Marchetti percorria as fazendas
do interior do Estado de São Paulo, também aquelas tomadas pelo tifo e pela
febre amarela, de maneira a poder assistir os imigrantes italianos na
catequese, na saúde e na promoção social e procurar o pão para os seus
pequeninos órfãos. Padre Marchetti se tornava, há um século, um autêntico
precursor das novas formas de apostolado, que atingiam as pessoas de todas as
camadas sociais. Padre Marchetti inseria-se totalmente no mundo migratório. Fez dele o centro de
sua missão. Movido por um real desejo de colaborar para o desenvolvimento das
populações migrantes, não mediu esforços pra encontrar formas e meios que
minimizassem o sofrimento de milhares de colonos nas fazendas do interior do
Estado de São Paulo, bem como o da população marginalizada na cidade de São
Paulo e do interior do Brasil. A preocupação do Padre Marchetti abrangia todos os imigrantes, mas
principalmente aqueles mais abandonados: os órfãos e os doentes, sem
assistência médica e espiritual. Em uma palavra, ele mostrou a todos, com seu
exemplo, que não devem pensar somente em si mesmos, mas porque são cristãos
devem estar prontos para sacrificarem-se ao próximo, todas às vezes que o
exigisse o grande mandamento de Cristo: a Caridade. A fé, a esperança e a
caridade, irremovíveis, guiaram o Padre Marchetti a uma vida
religiosa-missinária-apostólica tão intensa que frutificou em grandes e
inexplicáveis realizações no Brasil, no breve espaço de 22 meses. Apesar de ver
a sua saúde cada vez mais debilitada, Padre Marchetti continuava em ritmo
intenso de trabalho, movido pelos votos de Caridade e de Vítima do próximo,
proferidos no dia em que completou 27 anos. Padre José Marchetti via que sozinho não podia atender aquela messe tão grande,
que era o Estado de São Paulo. Por isso, dirigia-se insistentemente a Dom Scalabrini
pedindo-lhe outros sacerdotes para ajudá-lo no seu imenso campo de ação
pastoral. Contudo, os socorros não chegavam. Então, procurou ele mesmo
encontrar e formar alguns jovens que o pudessem auxiliar. Contava, sobretudo,
com o trabalho dedicado de sua mãe, Carolina, e das Irmãs Assunta, Ângela e
Maria, que tomavam conta do Orfanato e das crianças enquanto ele, numa entrega
total, atendia o seu povo.
“Uma noite, depois de uma de suas longas excursões nas fazendas, Padre José
Marchetti caminha em direção ao alto do Ipiranga, rezando terços, um pós outro,
para os benfeitores que lhes permitiram voltar com uma boa soma em favor dos
pequenos órfãos que, nesse momento, dormiam pacificamente, lá em cima, no
edifício branco, nascido à sombra encantadora da caridade.
- Pára e fica quieto! Desembolsa o dinheiro!
Não é o brilho das facas que aperta a garganta do missionário, mas a linguagem
italiana da intimidação. Para quem, para os filhos de quem, está consumindo a
vida? Padre Marchetti levanta então o crucifixo e encara os assaltantes, sem
timidez:
- O dinheiro é para os órfãos de nossos concidadãos. Se tendes a coragem,
roubai-mo!
Os facões se abaixam e o peregrino continua o caminho, rezando o terço.”.
(“Como um relâmpago” – Mario Francesconi)
A maioria dos imigrantes italianos era pobre. Desiludidos, enganados e
abandonados à própria sorte, alguns deles enveredavam por caminhos marginais:
roubo, prostituição, seitas, etc. Padre Marchetti teve um olhar de acolhida para esses imigrantes duplamente
exilados: da pátria e da sociedade. Também a eles o Padre Marchetti estendeu o
seu apostolado missionário. Dominado por uma idéia básica, nele mais forte do que a morte, e diante de um
trabalho complexo, difícil e arriscado, Padre José Marchetti não era homem de
se preocupar com perigos e obstáculos, surgidos de qualquer parte. Considerava
o Evangelho uma força invencível e o meio mais apto para penetrar em cada
camada social e em cada coração. Apesar das dificuldades com a língua, a fé que
saía de suas palavras era assim tão eficaz que ele se comunicava com todos de
modo impressionante e inesquecível.
A questão da marginalidade, sobretudo nas cidades, preocupava muito Padre
Marchetti. Em suas cartas, podemos constatar a sua insistência em prestar
formação, auxílio e acompanhamento especial às crianças e jovens, dispersos
pelas ruas; às moças levadas à prostituição e aos desempregados. Para afrontar
tão graves problemas, pensava em criar escolas especiais, centros de acolhida e
centros de profissionalização.
Zelo Apostólico
“...Passando perto de uma casa, Padre Marchetti escutou o choro de uma criança:
um choro desolado e sem conforto. Bate à porta. Nenhuma resposta! Chama por
ajuda. Alguém o informa que no dia anterior viram levar para fora daquela casa
o ataúde do dono. Ali devia ter ficado a esposa com o filhinho. Arrombaram a
porta e se depararam com uma cena, que relembrava as narrativas das antigas
pestes. Num pobre leito de palha, jazia sem vida uma pobre italiana, ainda
abraça ao seu filho, vivo e chorando. Ao lado, estavam duas velas, acesas por
ela antes de morrer vitimada pelo tifo. Padre Marchetti tira, então, dos braços
rígidos a pequena criança, reza por alguns minutos sobre o cadáver da mãe e
depois, como tantas outras vezes, descuidado do contágio iminente, volta
correndo até o Ipiranga, com o orfãozinho nos braços”.
(“Como um relâmpago” – Mario Francesconi)
Esta é uma das muitas cenas vividas por Padre José Marchetti. Diante das
urgências apostólicas, com as quais se deparava, sua caridade não conhecia
limites.
Em 1896, em São Paulo, especialmente no interior, as epidemias de febre amarela
e de febre tifóide dizimavam centenas de trabalhadores rurais, isolados e
abandonados nas fazendas. Muitos desses imigrantes eram condenados a morrer sem
nenhuma assistência média, sem nenhum conforto espiritual, já que todos se
afastavam deles por medo do contágio. Não havia ninguém para ajudá-los: nem o
Estado, nem os partidos políticos, nem os particulares. Padre José Marchetti,
desafiando os conselhos e as medidas de precaução, via, nesses pobres doentes,
pessoas que necessitavam de seu auxílio, dado que a ausência absoluta de
cuidados médicos era um dos maiores clamores daquela população migrante. Como
se sabe, os colonos tinham necessidade urgente de duas providências essenciais:
assistência médico-sanitária e assistência religiosa. Atender esses doentes era
um dos pilares da ação missionária de Padre José Marchetti. Por isso,
percorria, a pé ou a cavalo, grandes distâncias para encontrar a quem pudesse
socorrer com assistência médica e com o conforto dos sacramentos, a fim de que
pudessem ter ao menos uma morte digna. Além de colaborar, sobremaneira, na construção do hospital italiano Humberto I,
em São Paulo, destinado aos colonos imigrantes, Padre Marchetti insistia na
ação missionária das Irmãs junto aos enfermos.
Uma Luz Resplandecente
É fato incontestável que nos encontramos diante de um homem que traz Jesus
Cristo à nossa mente e como Ele Padre Marchetti passou à história como mensageiro
daquela Palavra que, entre as trevas do mundo, iluminou o caminho dos
migrantes. Padre Marchetti redescobriu aquela fôrma de que são feitos os santos. Quem quer
que se aproximasse dele, pequeno ou grande, inculto ou sábio, o percebia
diferente dos outros homens, dos outros sacerdotes, dos outros migrantes. Havia
nele “algo” especial. Dele, a Baronesa Veridiana Prado afirmou: “Aquele
sacerdote traz esculpidas no rosto as belezas das virtudes divinas”. Autêntico
missionário, por onde passava irradiava a presença de Deus. Esse “algo” que o
caracterizava, era o entusiasmo que o motivou a responder “sim” a Cristo, que o
chamara a unir-se a Ele na Sua missão e na Sua paixão. Na doação total ao próximo, contraiu a febre tifóide enquanto assistia aos doentes,
preparando-os à reconciliação com Deus. Além de ministrar os sacramentos aos
enfermos, recolhia os órfãos nas casas dos agonizantes e vítimas da doença. Padre José Marchetti morreu em conceito de santidade a 14 de dezembro de 1896.
Selou sua obra com o martírio. No mesmo dia, Padre Natal Pigato, informando a
Dom João Batista Scalabrini sobre a Morte de Padre José Marchetti, escreveu:
“Morreu um santo! Estava pronto para o céu. Deus o quis ao seu eterno repouso.
Assim tão cansado, consumido pelas fadigas, devorado pelos contínuos
sacrifícios por amor aos seus orfãozinhos, pelos quais não parou nunca, nem de
dia, nem de noite, para encontrar par ele o pão de cada dia. Terminou a sua
vida, deixando-nos nas mãos da Providência”. Padre Marchetti, além de gestos heróicos, realizou, sobretudo, os pequenos atos
de cada dia com simplicidade, humildade e caridade. A vida dele foi como um
mosaico: que se compunha de tantos pequenos fragmentos de cotidiano. Ele
acreditava nas verdades da fé e agia como acreditava, falava como sentia e se
comportava como falava. Assim, ensinou aos cristãos o modo mais simples para se
chegar a união com Deus e a todos indicou a coerência entre o pensamento e a
ação. Padre José Marchetti viveu pouco mais de 27 anos. Sua vida foi como a passagem
de uma estrela cadente, porém com um rastro e com um testemunho que nos ilumina
ainda hoje.
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